Corpos gordos também dançam.

Corpos gordos também dançam


Por Maíra Rosedal


O que um corpo gordo é capaz de fazer?

É engraçado quando as pessoas se surpreendem quando um corpo gordo faz qualquer movimento mais rápido. Quando este corpo se locomove com a mesma ou mais velocidade que um corpo magro. Os estigmas sociais que este corpo carrega, vem cheias de preconceitos, ironias, punições e covardias…
O padrão de beleza não se limita em dizer quem é feio e quem é bonito, mas quem é bom profissional, quem pode ocupar determinadas carreiras, principalmente as que exigem esforço físico.

- O corpo gordo é pesado, preguiçoso e lento. Eles dizem.
Será?
A capacidade corporal, mental, de flexibilidade, de movimentos não se restringem à um estereótipo. A capacidade corporal é individual.
Isto quer dizer que independente de você ser gordo, magro, alto ou baixo, você poderá ter a mesma ou maior capacidade que um biotipo oposto ao seu.
Essa capacidade, é a sua identidade e muitas vezes vem de uma história genética.
Sim, o gordo pode ser leve, delicado em seus movimentos.
Sim, ele pode ser ativo e rápido.
Não há “graça” no gordo dançando, há graciosidade.
Não há pesar , há contentamento.
Não há rudez, há delicadeza.
Corpos gordos também dançam, encantam, correm, amam…
O que um corpo gordo é capaz de fazer? Só ele poderá dizer.






         https://www.youtube.com/watch?v=ZLQk6XBgApg&feature=youtu.be



A interferência dos padrões estéticos no meio da dança

No ano de 1908 em um sítio arqueológico situado na Áustria, foi descoberto uma estatueta que poderia fazer o mundo questionar sobre suas mudanças estéticas. E qual era essa estatueta que dividiria opiniões ainda nos dias de hoje? Trata-se da Mulher de Willendorf ou também podendo chamá-la de: A Vênus de Willendorf. Sim, esta Vênus foi esculpida há 22 mil anos atrás aproximadamente. Quando se fala Vênus a imagem que se tem é de uma mulher magra, muitas vezes retratada com cabelos longos e com sua beleza pálida . A questão não é comparar estas obras seculares e sim causar uma reflexão sobre a beleza em seu contexto histórico e cultural.

ênus de Imagem inline 1Willendorf, estatueta de 11,1cm de altura, descoberta na Áustria.


Se observarmos a história com o passar do tempo, o senso estético das pessoas foi se modificando e isso faz parte da evolução. Uma vez que a beleza em sua grande maioria foi associada a mulher, era comum, o que não quer dizer que seja aceitável, a obrigatoriedade de atender a determinadas expectativas estéticas. Fatores históricos como o caso de não podermos ter o poder de decisão na sociedade, não termos direitos igualitários entre outros, até algumas décadas atrás, nos fazem muitas vezes voltarmos nesse estigma. O século XXI se confunde com seu passado porque apesar de se falar tanto em direitos e liberdades, ainda estamos aprisionados à fatos como padrões de beleza.


Branca, cabelos longos e loiros, magra, olhos verdes, azuis ou pele levemente bronzeada pelo sol? Como devemos ser? Devemos mesmo seguir padrões para sermos aceitos? A história já nos conta a beleza da pluralidade estética e mostra as diversas fases a qual passamos. Hoje já não é aceitável, apesar de ainda existir, que se queira definir alguém por sua beleza, ou em que carreira esta deva seguir. Se poderá ser atriz, cantora, bailarina, foco principalmente nessas profissões mais comercias pois é onde muitos se espelham, dependendo exclusivamente de uma escolha pessoal.


Se colocarmos a dança em destaque nesta posição em que para agradar o público atual você tenha que ter um corpo magro por exemplo, acabamos podando todas as outras pessoas que não tenha esse biotipo. A dança é arte, pode-se ser uma manifestação cultural, uma representação de um sentimento, uma releitura de uma obra escrita ou uma bela leitura de uma música. Não se pode tentar padronizar uma arte, sendo mais específico, que alguém se module para atender a um arquétipo. A dança deve ser livre. Na dança contém a beleza e não a beleza midiática necessita estar na dança. Este diálogo deve ser pauta constante nos palcos, nas redes sociais, na mídia televisa de forma que permita que este mesmo público que em sua maioria que “foge” aos padrões de beleza, possa se ver e admirar um corpo em movimento ao seu natural.
Independente da sua nacionalidade, da sua classe social, altura, tipo de corpo, pode-se fazer o que quiser, pode-se sim ser uma bonita representação cultural através da dança. A dança não é singular, ela é plural, assim como o ser humano não consiste em um único biotipo. Esta é uma luta crescente, do qual vemos toda nossa trajetória histórica até chegarmos ao direito de escolher quem queremos ser. Não se pode dar brechas a involução, exerça seu direito de ter o corpo que quiser, dançar o tipo de dança que desejar e ser o que sonhar.



https://www.youtube.com/watch?v=lmDudrDl4ik&feature=youtu.be



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